Bullying em Portugal: o impacto na infância e a importância do acolhimento familiar

bullying

A infância deveria ser um tempo de descoberta, aprendizagem e construção de amizades. É durante estes anos que as crianças começam a desenvolver a sua identidade, a compreender as próprias emoções e a aprender a relacionar-se com os outros.

No entanto, para algumas, o quotidiano é marcado pelo medo, pela humilhação e pela exclusão. O bullying continua a ser uma realidade preocupante em Portugal, com consequências que podem afetar o bem-estar emocional, a confiança e o desenvolvimento das crianças e dos jovens.

Quando falamos de bullying, importa olhar para além dos episódios que acontecem na escola ou nas redes sociais. 

Neste contexto, o acolhimento familiar convida-nos a refletir sobre a importância das relações de confiança, da segurança emocional e da presença de adultos disponíveis. 

O que é o bullying?

O bullying é uma forma de violência caracterizada por comportamentos intencionais e repetidos de agressão, intimidação ou humilhação, associados a um desequilíbrio de poder entre quem agride e quem é alvo desses comportamentos. Pode manifestar-se através de palavras, gestos, agressões físicas, ameaças, exclusão social ou outras formas de violência que provocam sofrimento.

Ao contrário de um conflito pontual entre colegas, o bullying envolve uma dinâmica de agressão que se repete e na qual a vítima pode sentir dificuldade em defender-se ou em interromper a situação. Por esse motivo, não deve ser desvalorizado como uma simples brincadeira, uma fase normal do crescimento ou algo que as crianças têm de aprender a suportar.

As manifestações de bullying podem assumir diferentes formas.

A violência verbal inclui insultos, comentários ofensivos e humilhações. A violência física pode envolver empurrões, pontapés ou destruição de objetos pessoais. Por sua vez, a violência social manifesta-se através da exclusão deliberada, da disseminação de rumores ou da tentativa de isolar uma criança do seu grupo de colegas.

Com a utilização crescente das tecnologias digitais, o cyberbullying acrescenta outra dimensão ao problema. Mensagens ofensivas, fotografias partilhadas para humilhar, ameaças ou publicações que expõem uma criança ao ridículo podem prolongar o sofrimento para além do horário escolar, dificultando a sensação de segurança.

Bullying em Portugal: o que dizem os números?

De acordo com a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), entre janeiro e setembro de 2025 foram apoiadas 77 vítimas de bullying e cyberbullying. Destas situações, 55 correspondiam a bullying, 17 a cyberbullying e cinco envolviam ambas as formas de violência.

No mesmo conjunto de registos, a violência verbal foi a forma mais frequentemente identificada, estando presente em 71,7% das situações. A violência física surgiu em 41,7% e a violência social em 40%. Estes valores não são mutuamente exclusivos, uma vez que uma mesma vítima pode sofrer diferentes formas de violência.

Os dados divulgados pela APAV revelaram ainda que quase metade das pessoas apoiadas tinha entre 11 e 17 anos. Além disso, em 62,2% das situações registadas, a pessoa agressora era colega de turma da vítima. Estes resultados reforçam a importância de prestar atenção às relações que se estabelecem no contexto escolar e de criar mecanismos que permitam identificar e interromper comportamentos violentos.

Por outro lado, o relatório Education and Training Monitor 2025, da Comissão Europeia, que apresenta resultados de um estudo nacional realizado em Portugal com 31 133 estudantes entre os 11 e os 18 anos, refere que 5,9% dos estudantes inquiridos declararam ser vítimas de bullying e 6,1% de cyberbullying.

É importante distinguir estes resultados: os números da APAV dizem respeito a vítimas apoiadas por aquela instituição durante um período específico, enquanto os valores do estudo nacional resultam das respostas dos estudantes inquiridos. Não devem, por isso, ser somados nem interpretados como uma contagem de todos os casos de bullying em Portugal.

Quais são as consequências do bullying na infância?

O bullying pode ter consequências que vão muito além do momento em que a agressão acontece. Quando uma criança é repetidamente humilhada, ameaçada ou excluída, pode começar a sentir que não pertence ao grupo, que não é aceite ou que existe algo de errado consigo.

Em alguns casos, o sofrimento manifesta-se através de tristeza, ansiedade, irritabilidade, alterações do sono ou dificuldades de concentração. Noutras situações, a criança pode começar a evitar a escola, afastar-se dos amigos, perder o interesse por atividades de que gostava ou apresentar mudanças de comportamento que os adultos nem sempre conseguem compreender de imediato.

A experiência de bullying também pode afetar a confiança nas relações. Uma criança que é constantemente ridicularizada pode ter receio de participar, expressar opiniões ou procurar novos amigos. Quando não encontra apoio, pode sentir-se cada vez mais isolada e ter dificuldade em explicar aquilo que está a acontecer.

No entanto, é importante reconhecer que cada criança reage de forma diferente. Nem todas apresentam os mesmos sinais, e algumas podem esconder o sofrimento por vergonha, medo de represálias ou receio de que os adultos não levem a situação a sério.

Por essa razão, escutar sem julgar, levar as preocupações a sério e procurar ajuda adequada são passos fundamentais. A intervenção deve envolver os adultos e as entidades responsáveis, incluindo a escola e, quando necessário, profissionais especializados.

Quando a criança não encontra apoio em casa

Enfrentar o bullying pode ser particularmente difícil quando a criança não sente que tem alguém a quem recorrer. Para muitas vítimas, a possibilidade de falar com os pais ou com outro adulto de confiança representa um primeiro passo para quebrar o silêncio. Porém, nem todas dispõem dessa rede de apoio ou conseguem pedir ajuda no momento em que mais precisam.

Uma criança pode ter medo de preocupar a família, sentir vergonha do que aconteceu ou acreditar que ninguém conseguirá protegê-la. Se, além disso, vive num contexto familiar marcado pela instabilidade, pela ausência de cuidados adequados ou pela falta de disponibilidade emocional dos adultos, poderá sentir-se ainda mais sozinha perante a violência.

Isto não significa que todas as crianças sem uma rede familiar segura sofram bullying, nem que todas as vítimas de bullying tenham dificuldades familiares. São situações diferentes, que não devem ser confundidas. Contudo, quando várias dificuldades se acumulam, torna-se especialmente importante garantir que a criança tem acesso a adultos disponíveis, proteção e acompanhamento.

Uma criança não deve ter de provar que está a sofrer para merecer ajuda. Precisa de ser escutada, acreditada e protegida. Além disso, necessita de saber que a responsabilidade pela violência pertence a quem a pratica, e nunca a quem é vítima dela.

Qual é a relação entre o bullying e o acolhimento familiar?

O acolhimento familiar é uma medida de promoção dos direitos e de proteção de crianças e jovens em perigo. Em Portugal, permite que uma criança ou jovem viva temporariamente com uma pessoa ou família devidamente habilitada, quando não pode permanecer junto da família de origem e essa solução corresponde ao seu superior interesse.

A sua finalidade não é resolver especificamente o bullying, nem substitui a intervenção necessária na escola ou junto das pessoas envolvidas. Ainda assim, o acolhimento familiar relaciona-se com esta temática através de uma dimensão essencial: a importância de proporcionar segurança, estabilidade e relações de confiança durante a infância.

As crianças que necessitam de acolhimento familiar têm histórias e necessidades diferentes. Algumas podem ter vivido situações de negligência, violência, instabilidade ou ausência de cuidados adequados. Outras podem enfrentar desafios emocionais ou sociais que exigem atenção individualizada. Cada situação deve ser compreendida sem generalizações e com respeito pela história da criança.

Ao integrar uma criança, a família de acolhimento procura proporcionar-lhe um ambiente familiar seguro, com rotinas, cuidados consistentes e adultos disponíveis para a escutar. Estas experiências podem ajudá-la a sentir-se respeitada e a desenvolver novas referências relacionais. Se a criança estiver a viver uma situação de bullying, o acompanhamento adequado e a articulação com a escola e os profissionais responsáveis continuam a ser fundamentais.

O acolhimento familiar não apaga o que aconteceu nem garante que todas as dificuldades desapareçam. Porém, pode contribuir para que a criança não tenha de enfrentar os seus desafios sem apoio. Ter alguém que escuta, que leva os seus sentimentos a sério e que procura soluções em conjunto pode fazer uma diferença importante no seu quotidiano.

A importância de crescer num ambiente seguro

A segurança de uma criança não se resume à ausência de agressões físicas. Inclui também a possibilidade de expressar emoções sem medo, de pedir ajuda quando algo corre mal e de sentir que os adultos levam a sério aquilo que tem para dizer.

Num ambiente familiar seguro, a criança pode encontrar oportunidades para falar sobre as suas experiências, aprender a reconhecer os próprios sentimentos e desenvolver estratégias para enfrentar situações difíceis. A presença de adultos atentos permite igualmente identificar sinais de sofrimento e procurar apoio especializado quando necessário.

No acolhimento familiar, os gestos quotidianos podem contribuir para essa sensação de segurança: uma conversa tranquila, uma rotina previsível, a disponibilidade para ouvir ou a confiança de que um adulto irá procurar ajuda quando existe um problema. Não são soluções mágicas, mas podem constituir experiências positivas numa fase importante do desenvolvimento.

É igualmente essencial respeitar o ritmo de cada criança. A confiança não surge por obrigação, e uma relação segura constrói-se com tempo, consistência e respeito. O papel da família de acolhimento passa por cuidar, acompanhar e colaborar com a equipa técnica, sem exigir que a criança ultrapasse rapidamente as suas dificuldades.

Como podemos combater o bullying?

O combate ao bullying exige o envolvimento de toda a comunidade. Famílias, escolas, profissionais, instituições e colegas têm um papel importante na prevenção, na identificação dos sinais e na intervenção perante situações de violência.

Em primeiro lugar, é fundamental ensinar as crianças a reconhecer comportamentos que magoam e a compreender que a humilhação, a intimidação e a exclusão deliberada não são brincadeiras inofensivas. Promover a empatia, o respeito pela diferença e a responsabilidade pelos próprios atos ajuda a construir relações mais saudáveis.

Além disso, os adultos devem estar atentos a alterações de comportamento, medo de ir à escola, isolamento ou outros sinais de sofrimento. Quando uma criança revela que está a ser vítima de bullying, é importante escutá-la com calma, agradecer-lhe por ter contado e evitar culpabilizá-la ou desvalorizar o que sente.

As situações devem ser comunicadas à escola e às entidades competentes, de forma a garantir uma resposta adequada e a proteger a criança. No caso do cyberbullying, também é importante preservar provas relevantes, evitar a divulgação de conteúdos humilhantes e procurar orientação sobre os passos seguintes.

Por fim, as testemunhas não devem ser esquecidas. Quem presencia uma agressão ou uma humilhação pode contribuir para interromper o ciclo de violência ao procurar um adulto responsável, apoiar a vítima de forma segura e não partilhar conteúdos que aumentem a exposição ou o sofrimento.

Dia Mundial de Combate ao Bullying: nenhuma criança deve enfrentar a violência sozinha

O Dia Mundial de Combate ao Bullying, assinalado a 20 de outubro, é uma oportunidade para recordar que a prevenção não se faz apenas através de campanhas ou de mensagens publicadas nas redes sociais. Exige atenção diária, respostas concretas e a disponibilidade para agir quando uma criança precisa de ajuda.

É também um momento para refletir sobre a importância das relações que construímos com as crianças. Uma infância segura não significa uma infância sem dificuldades. Significa que, quando surgem problemas, existem adultos preparados para escutar, proteger e procurar soluções.

O acolhimento familiar faz parte desta reflexão mais ampla sobre os direitos das crianças. Ao proporcionar um contexto familiar seguro a crianças e jovens que não podem viver temporariamente com a sua família de origem, pode contribuir para que encontrem estabilidade, afeto e adultos disponíveis para os acompanhar.

Não devemos esperar que uma criança chegue ao limite para lhe perguntar como está. Precisamos de criar espaços onde possa falar, sentir-se respeitada e pedir ajuda sem medo.

Todas as crianças merecem crescer sem violência, com segurança e com a certeza de que a sua voz importa.

Como pedir ajuda perante uma situação de bullying?

Se uma criança ou jovem estiver a ser vítima de bullying, ou se conhecer alguém que esteja a passar por esta situação, é importante procurar apoio junto de um adulto de confiança e comunicar os factos à escola e às entidades competentes.

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) disponibiliza a Linha de Apoio à Vítima, através do número 116 006, com atendimento gratuito e confidencial nos dias úteis, das 8h às 23h. Para situações de cyberbullying, pode também ser procurada a Linha Internet Segura, através do número 800 219 090, de acordo com os horários de funcionamento divulgados pelo serviço.

Perante perigo imediato, deve ser contactado o número europeu de emergência, 112.

Pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É um passo importante para interromper a violência, proteger a vítima e garantir que a situação recebe a atenção necessária.

Acolhimento familiar: cuidar da infância é proteger o futuro

Cada criança tem direito a crescer num ambiente onde se sinta segura, respeitada e protegida. Combater o bullying significa defender esse direito, intervindo perante a violência e promovendo relações baseadas na empatia, na dignidade e no respeito pela diferença.

O acolhimento familiar recorda-nos que a proteção das crianças também depende da existência de adultos disponíveis para cuidar e acompanhar quem atravessa momentos difíceis. Não substitui as medidas necessárias para combater o bullying, mas pode proporcionar um ambiente familiar protetor às crianças e jovens que precisam temporariamente de viver fora da família de origem.

A infância não deve ser marcada pelo medo de ir à escola, pela vergonha de ser diferente ou pela sensação de não ter ninguém a quem recorrer. Cada criança merece ser ouvida, acreditada e protegida.

Não pode ser família de acolhimento? Pode ajudar uma criança a encontrar quem acolha.

Partilhe esta informação, fale sobre o acolhimento familiar e ajude a divulgar uma resposta que coloca a segurança e o bem-estar das crianças no centro.

Porque proteger a infância é uma responsabilidade de todos nó

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp